“As lesões oculares poderão agravar se a doença sistémica não estiver controlada”

“Lúpus Eritematoso Sistémico – Manifestações Oftalmológicas” foi o tema apresentado pela oftalmologista Dra. Manuela Bernardo no XII Encontro  Nacional de Doentes com Lúpus que teve lugar a 26 de Maio. A Associação de Doentes com Lúpus esteve à conversa com a especialista e deixamos-lhe a entrevista com as principais respostas.

Associação de Doentes com Lúpus (ADL): Como o Lúpus pode afectar o olho?
Dra. Manuela Bernardo (MB):O Lúpus é uma Doença Autoimune Inflamatória Crónica que pode afectar os anexos do globo ocular bem como o olho e também o sistema nervoso central com consequentes alterações oculo-motoras.
Nos anexos do globo ocular pode aparecer o Lúpus Eritematoso Discóide. Caracteriza-se pelo aparecimento de lesões nas pálpebras, em áreas da pele expostas ao sol, com um percurso insidioso e crónico e que podem motivar a necessidade de biópsia. O seu diagnóstico é importante pois pode estar associado a um risco de envolvimento sistémico da doença.
No olho o lúpus pode manifestar-se de variadas formas. Ao nível do segmento anterior do olho podem surgir inflamações na esclera denominadas esclerites que são caracterizadas por olho vermelho doloroso. Ao nível da córnea podem aparecer as lesões do olho seco, nomeadamente queratites ou úlceras que podem manifestar-se por dor, sensação de areia e visão turva. Pode ainda existir lesão das glândulas lacrimais (20%) e redução da produção da lágrima com consequente aparecimento da Queratoconjuntivite Sicca Grave que é uma das manifestações do Síndrome de Sjogren.
Nas manifestações oftalmológicas do Lúpus no segmento posterior do olho temos a considerar a Retinopatia Lúpica, a vasculite, as lesões oclusivas de vasos da retina, a nevrite óptica e ainda a Retinopatia Tóxica da Cloroquina, que se caracterizam por uma diminuição grave da visão.
O Lúpus pode ainda afectar o Sistema Nervoso Central e provocar alterações oftalmológicas nomeadamente paralisias oculomotoras com consequente paralisia facial, ptose ou estrabismo que originam visão desfocada ou diplopia.
Num doente com lúpus é importante também não esquecer as manifestações das complicações oftalmológicas associadas às terapêuticas instituídas, nomeadamente o uso de corticóides e antimaláricos.
O uso de corticóides pode originar hipertensão ocular, glaucoma ou catarata que podem levar à cegueira, se não forem tratados. Por seu lado, o uso prolongado dos antimaláricos pode levar ao aparecimento de maculopatia tóxica, podendo surgir diminuição da acuidade visual, alteração na visão das cores ou alteração do campo visual.

XII Encontro Maio 2018
Dra. Manuela Bernardo

(ADL): Quais os principais sintomas que um doente pode apresentar?
(MB): O Lúpus é uma doença inflamatória e como tal o doente pode ter um olho vermelho acompanhado por dor de intensidade variada, podendo ir desde a sensação de presença de corpo estranho bem como dor intensa.
Pode ainda ter fotofobia, visão desfocada, baixa de visão que pode ser ligeira ou grave, alteração na visão das cores, alteração do campo visual, estrabismo, ptose ou diplopia.

(ADL): Perante os sintomas é possível distinguir a causa?
(MB): Os sintomas associados ao lúpus podem ser semelhantes noutras doenças pelo que se torna difícil distinguir a sua causa. Por este motivo um doente com lúpus deve ser observado por um especialista sempre que surgir um sintoma ou manifestação oftalmológica.

(ADL): Quais os despistes necessários para se perceber que a causa é do Lúpus?
(MB): A atribuição de um sintoma ou manifestação ocular ao lúpus pode ser difícil e demorada. É fundamental a observação do doente por um oftalmologista bem como a observação por uma equipa multidisciplinar, dado que o doente necessita de exames oftalmológicos e exames complementares sistémicos.

(ADL): Quais as manifestações oftalmológicas que um doente deve ter em conta para procurar um especialista?
(MB): Perante manifestações de olho vermelho, acompanhado ou não de dor ocular, fotofobia, visão desfocada, baixa de visão ligeira ou grave, diplopia, estrabismo ou ptose o doente deve recorrer com a maior brevidade a um especialista para observação e orientação diagnóstica e terapêutica.

Dra. Manuela Bernardo

(ADL): Fala-se numa abordagem multidisciplinar, no entanto, na prática isso nem sempre é verdade. Acha que se deve a quê? Como se pode ultrapassar?
(MB): As doenças autoimunes, como o Lúpus, são doenças que podem atingir vários órgãos e sistemas. Por este motivo a abordagem multidisciplinar é fundamental para se estabelecer o diagnóstico e as orientações terapêuticas.
A falência desta multidisciplinaridade deve-se por vezes à dificuldade ao acesso ou não existência de algumas especialidades nos locais de tratamento do doente.
A criação de uma boa rede de referenciação bem como o apoio ao doente nas suas deslocações poderiam ajudar a criar e fazer crescer o apoio multidisciplinar que o doente necessita.

(ADL): Que orientações essenciais pode deixar aos doentes com Lúpus?
(MB): O doente deverá referir sempre ao seu médico qualquer sinal ou sintoma novo, pois pode ser um indício de complicação. Alertar o doente para a necessidade urgente de observação se surgirem queixas de alteração da visão, dor ocular, olho vermelho, ptose, estrabismo ou diplopia. Lembrar ao doente dos possíveis efeitos colaterais dos medicamentos que toma para o lúpus e da necessidade de controlo periódico. O objectivo do tratamento é o controlo da actividade da doença, com efeitos colaterais dos medicamentos mínimos e uma boa qualidade de vida. Informar o doente que as lesões oculares poderão agravar se a doença sistémica não estiver controlada. Alertar o doente que é importante o acompanhamento multidisciplinar. Aconselhar o doente com diagnóstico de Lúpus a ser sempre observado por oftalmologia para saber como está a “saúde visual” dos seus olhos.

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